Sistemas caipiras de produção de ovos: entre a tradicionalidade e a normatização

Atualizado: 30 de Jun de 2020

Nomeada pelos indígenas no descobrimento do Brasil, as galinhas caipiras passaram por um longo período de seleção natural e desenvolvimento, até sua criação tornar-se normatizada pela ABNT.



O termo caipira é interpretado de diferentes formas, tanto por produtores, como consumidores. Mas afinal, porquê aquele ovo é considerado caipira?


O termo caipira nasceu nos primeiros contatos entre colonizadores e indígenas nativos do Brasil. Os indígenas, ao observarem o comportamento das aves, as batizaram de caipira, do tupi Ka'apir ou Kaa-pira, que significa "cortador de mato" (SALLES, 2005). Fato que vincula a origem da palavra caipira a atividade de pastoreio da galinha, ou seja, a atividade de consumo de gramíneas.


A história da avicultura no Brasil pode ser dividida e atrelada a própria história do país. Pois atravessou todos os momentos, desde o descobrimento, colonização, escravidão, o ciclo do ouro, industrialização e está em constante transformação e evolução. Inicialmente trouxe consigo as características herdadas dos portugueses. Segundo Cascudo (2004) em Portugal a galinha “não pertencia ao povo e sim às gentes de gabarito superior”. É mais ou menos índice de fidalguia alimentar”. A história mostra que durante séculos a carne de qualquer animal era, assim como no resto do mundo, cara e escassa.


No Brasil colônia, onde a terra pertencia a Portugal e predominava a produção de cana-de-açúcar para metrópole, era frequente a falta de alimentos básicos, assim como o frango, que servia apenas os senhores de terra ou comerciantes ricos. Dizia-se: “quando pobre come frango, um dos dois está doente” (MARANHÃO, 2011). Porém, graças a adaptação das aves no continente, sua expansão foi rápida e alcançou vastidões inesperadas pelo interior brasileiro, sem controle do elemento colonizador.


As criações cresceram apoiadas em conhecimentos tradicionais dos criadores, eram prioritariamente destinadas ao autoconsumo das famílias, e seu excedente comercializado ou permutado, contribuindo para geração de renda e aquisição de outros produtos alimentícios.


As aves passaram por um constante processo de seleção natural e adaptação ao meio. Por serem originárias de outro continente, as galinhas passaram por um longo processo de evolução, adquirindo características de rusticidade, expressas na maior persistência, resistência a doenças, adaptações à predadores, condições climáticas, de alimentação e manejo.


Os sistemas de criação tinham como características as aves soltas pelos quintais, cuja alimentação dependia em grande medida do que conseguiam obter na área, entre insetos, moluscos, minhocas, plantas tenras e outros. Tradicionalmente, fornecia-se uma pequena quantidade de milho pela manhã e outra à tarde. Desse modo, sua produção dependia fortemente do ritmo da atividade biológica geral.



Todas estas características definiam os sistemas de produção da época. Os tradicionais caipiras.


A partir da ampliação da mercantilização da avicultura, iniciou-se um processo de desenvolvimento industrial da produção. Marcado pela adaptação dos processos produtivos da indústria de transformação ao setor agropecuário. Tem seu marco referencial no sul dos EUA na década de 1950, quando inicia-se o controle da produção em ambientes fechados e a segmentação e especialização da atividade.


A partir daí cresce a artificialização dos sistemas de produção e a aproximação dos ideários da indústria ao manejo com os animais no campo. Inicia-se o confinamento em larga escala, a padronização da genética e da alimentação e a tecnificação das instalações, que propicia condições ideais de desenvolvimento as aves não adaptadas ao nosso clima, através do controle da ventilação, temperatura, umidade e qualidade do ar.


Estas modificações influenciaram em grande medida todo contexto da avicultura no Brasil. Foram introduzidas tecnologias em todos os setores, e o termo caipira passou por modificações e diferentes nuances, ampliando seu espectro de conceitos e definições.


Diante de tais questões, e após inúmeras tentativas de padronização do termo, em 2016 a Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT publicou NBR 16437:2016 – “Avicultura - Produção, classificação e identificação do ovo caipira, colonial ou capoeira, que especificou os requisitos para produção, classificação e identificação do ovo caipira.


Para NBR 16437:2016, sistema de produção de ovo caipira é definido como: “sistema de produção de ovos comerciais oriundos de galinhas e/ou galinhas caipiras com acesso a área de pastejo e que não recebam aditivos zootécnicos melhoradores de desempenho e anticoccidianos profilaticamente”.


Os animais devem ser soltos, a campo, sendo doravante sua criação extensiva, usar no mínimo 3 m² de pasto por ave.


Os alimentos destinados as galinhas caipiras não podem conter substâncias proibidas. A suplementação com macro e microminerais é permitida somente para atender às exigências nutricionais. É vedado o uso de todos e quaisquer insumos, produtos e medicamentos veterinários não autorizados ou não registrados para uso em aves.


As aves em período de cria e recria podem ser mantidas exclusivamente em galpões fechados. Porém, durante toda fase de produção, as galinhas e/ou galinhas caipiras devem ter acesso às áreas externas. A densidade máxima no alojamento é de 7 aves/ m² dentro do galpão.


Por outro lado, não se restringe a utilização de rações comerciais com ingredientes transgênicos e permite-se aves hibridas, oriundas de linhagens caracterizadas por alto desempenho produtivo.


Diante disso, há os defensores do caipira vinculado ao tradicional, sem adição de ração comercial e genética "industrializada", e os mais flexíveis, basta serem criadas com acesso à área externa para serem caipiras.


Referências


CASCUDO, L. CÂMARA. História da Alimentação no Brasil. São Paulo: Global, 2004.

MARANHÃO, Ricardo. O Frango: história e gastronomia. 1 ed. São Paulo: Usina de Edição, 2011, 165 p.

SALLES, M. N. G. Criação de galinhas em sistemas agroecológicos. Vitória: Incaper, 2005. 284 p.